quinta-feira, 7 de abril de 2011

OFF - Dia do Jornalista

A primeira aula de qualquer coisa é um festival de perguntas. Na faculdade, idem. Lembro como se fosse hoje quando o professor Marcelo Lopes, de Introdução ao Jornalismo, me fez a sabatina clássica. Eu tinha 16 anos à época e, para ser sincero, não sabia direito o que estava fazendo ali.

Mas, ao menos, identifiquei o motivo por ter escolhido essa graduação. E citei o episódio que despertou o interesse - 14 de janeiro de 2000, título mundial de clubes do Corinthians, narração absolutamente emocionada e emocionante de Eder Luiz.

Queria ter a oportunidade de presenciar e, de certo modo, participar de eventos tão emocionantes, marcantes, históricos. Também disse, na mesma resposta, que gostava muito de Química. O tal professor ainda fez o brilhante comentário "então por que não fez (vestibular para) Química? Por isso, nunca, dali em diante, fui com a cara dele.

Com o passar dos semestres na faculdade, com a experiência adquirida nas colaborações jornalísticas para sites, com o aprendizado ímpar do estágio, com a plenitude profissional do primeiro emprego e com a modernidade dos trabalhos freelancers (ufa!), oito anos se passaram. E alguns conceitos fazem parte da bagagem.

Nada sobrou dos sonhos da época do início do curso.

Hoje, afirmo tranquilamente que o Jornalismo, no Brasil, é tratado como escória, por todas as partes. Elenco os motivos:

1) Classe desunida - creio que seja algo comum em profissões que envolvem cursos de 3º grau. Com poucas exceções, vale a velha história: se tudo estiver bem comigo, tudo está bom. E vice-versa. Ninguém está nem aí para os aspectos macro da área, querem apenas a inserção no mercado de trabalho.

2) Tratamento vergonhoso dado pelas empresas - este decorre do primeiro. Se a meta genérica é uma vaguinha para não frequentar as fileiras do desemprego, então qualquer oportunidade está de bom tamanho. E esse o momento em que as empresas empregadoras pisam nos jornalistas. O problema mais evidente é a remuneração vergonhosa, sendo, inclusive, muito abaixo do piso estabelecido pelo Sindicato dos Jornalistas (veja aqui). Há casos de jornalistas formados, trabalhando em emissoras de rádio de alto gabarito, recebendo menos de R$ 1 mil. Ou de assessorias de imprensa, em que o assessor cumpre expediente de até nove horas diárias, para receber R$ 1,5 mil. Ultimamente, outro agravante: as empresas não mais registram os funcionários. O pagamento se dá via emissão de nota, o que pinça todos os benefícios inerentes ao regime celetista.

3) Diploma desnecessário - graças à ADPF 130, julgada em 2009 pelo Supremo Tribunal Federal, não existe mais a necessidade de ter um diploma de jornalista (ou estar cursando) para exercer a profissão. O impacto de tal decisão é pouco sentido pelos grandes veículos - inclusive, a maior parte deles não derrubou o requisito para contratar. O impacto foi severo nas mídias menores, especialmente as regionais e comunitárias. Perigo à vista, tendo em conta o fato de que muitos desses veículos tem um viés tendencioso, parcial. Agora, sem restrições, poderão publicar o que quiserem, como quiserem.

4) Qualidade deprimente da mão-de-obra e do serviço - se a pedida por qualificações caiu, o nível dos jornalistas, é óbvio, também despenca. Ouvimos/lemos/vemos absurdos veiculados diariamente e, adivinhe, não é por acaso. Além dos erros, o enfoque dado nas coberturas beira o ridículo. Sensacionalismo é um mantra e a sociedade se acostuma com o lixo. Assim, o que tem qualidade, pasmem, é desvalorizado e sai/nem entra nesse esquema.

Paro, muitas e repetidas vezes, para pensar se minha escolha, aquela de mais de oito anos atrás, foi correta. Não raras são as ocasiões em que chego ao "não". Mesmo assim, ainda me resta algum fio de esperança de ver a minha profissão valorizada, bem-feita e reconhecida.

Por isso, para aqueles que não se alienam no mundo, deixo essa mensagem para a reflexão. Podemos fazer alguma coisa? Estamos atados às correntes corrosivas do mercado ou há saídas?

Já para aqueles que acharam tudo que escrevi acima "papo furado", nada me resta a não ser a politicagem. Então, nesse caso, desejo: feliz Dia do Jornalista.

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